Meu Avô e sua arte



Da orelha do livro extrai-se o seguinte texto:

“Há cerca de um quarto de século assistimos na Academia Paulista de Letras a uma conferência de Afrânio Peixoto em que, discorrendo, eruditamente, sobre motivos históricos brasileiros e a que estando presente Alcântara Machado, o criador do bairrismo bandeirante, em vez de verberar o sentimento bairrista, o polígrafo baiano o defendeu brilhantemente, com lógica irrefutável: “O bairrismo é plenamente justificável, porque quem ama a pátria pequenina é porque ama ainda com mais ardor a grande mãe-pátria.” Afinando por esse diapasão é que Walfredo Rodriguez, jornalista e escritor de João Pessoa, após ter escrito uma “História do Teatro da Paraíba”, largamente elogiada pela crítica, vem de trazer à luz o seu “ROTEIRO SENTIMENTAL DE UMA CIDADE” em que, em páginas de acendrado bairrismo ou de bom patriotismo, além de descrever os aspectos mais pitorescos de sua cidade, aludindo a fatos, homens e coisas de várias décadas, cita, como que em ânsia incontida de tudo revelar, pôr à vista do artérias, em relato circunstanciado que só se justifica pelo fato de tudo querer conservar indelével.

“ROTEIRO SENTIMENTAL DE UMA CIDADE” com ser livro escrito por um estilista, que até nisso empenhou o seu amor, é um documentário fidedigno que vem enriquecer a nossa biografia sobre a vida de nossas urbes e que, portanto, não pode faltar à estante dos estudiosos de nossa história.
E. A. D.”


Do Prefácio, escrito pela pena mágica de Vírginius da Gama e Melo, temos essas valorosas passagens:

“Depois da “História do Teatro da Paraíba”, Walfredo Rodrigues apresenta novo livro, este “Roteiro Sentimental de Uma Cidade” . O exercício, por longo tempo, da direção do Teatro Santa Rosa, além de suas qualidades de estudioso e conhecedor profundo da arte cênica, inclusive sua história, fizeram do seu primeiro livro uma obra essencial para o estudo do desenvolvimento do teatro no Brasil. Ainda agora, a Biblioteca do Congresso de Washington, incorporou ao seu notável acervo a obra inicial de Walfredo Rodriguez. É ainda em virtude desse caráter de historiador consciencioso e otimamente documentado, que escreve e organiza o “Roteiro Sentimental”.
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Walfredo Rodriguez, há muitos anos, se dedica ao levantamento histórico da cidade de João Pessoa. Manteve coluna quase diária, nos jornais da terra, relatando curiosidades, fatos pitorescos, tudo aquilo que a historia mais ou menos oficial obscurecia. Anos seguidos, num labor paciente, recolheu desenhos antigos, fotografou também aquilo que o tempo conseguiria fazer desaparecer. Seu acervo, nesse ramo, é notável e grande parte faz complemento ao texto do atual volume, através de ilustrações que revivem fatos, coisas, pessoas.
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Os poetas viram o que Walfredo Rodriguez traduz em prosa, depois de muito ter pesquisado e vivido. Além de documento, este “Roteiro Sentimental” valoriza-se pela presença comovida de sua saudade e, dele,parafraseando e completando,pode dizer-se que, quem o toca, não está somente tocando um homem, mas também uma cidade, aqui palpitante. João Pessoa, novembro de 1961.”


Capítulo primeiro
“CAPÍTULO I – PRIMEIROS DIAS

Todos os que escreveram sôbre a historia da Paraíba são acordes em afirmar que, após a paz com o índio Piragibe, cacique dos Tabajaras, os portugueses capitaneados por João Tavares se estabeleceram no Varadouro, à margem direita do Rio Sanhauá, sítio próximo ao lugar onde o acôrdo fôra firmado, em 5 de agosto de 1585. E, exatamente nesse local, se acha, hoje, situada a capital do Estado da Paraíba, denominada Nossa Senhora das Neves, em homenagem à santa do dia.
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Publicado pela A UNIÃO, em 05-06-1986.
Da orelha do livro, belissimamente escrita por Waldemar Duarte, extrai-se o seguinte texto:

“EVOCANDO WALFREDO RODRIGUEZ
Em agosto de 1984, a Fundação Casa de José Américo realizou a Semana Cultural Walfredo Rodriguez para “celebrar a passagem dos noventa anos do artista paraibano e, sobretudo, ampliar o discurso em torno de sua obra.” Daí resultou Walfredo Rodriguez e a Cultura Paraibana, com ntrodução e organização de Alex Santos. Foram conferencistas Wills Leal (cinema). Raimundo Nonato Batista (teatro); José Otávio de Arruda Melo (urbanismo); Waldemar Duarte (literatura) e J. Machado Bitencourt (fotografia). As conferencias que foram programadas para uma plaqueta, não foram incluídas no orçamento da Comissão do IV Centenário da Paraíba e ficou para ser publicada mesmo pela Secretaria de Cultura.
Walfredo Rodriguez e a Cultura Paraibana é o resgate, em pequena proporção, do artista polivalente que foi Walfredo Rodriguez, cuja memória temos a obrigação de preservar com muito carinho. Ainda muito jovem, ensaiando os primeiros passos no conhecimento da cultura paraibana, acompanhamos Walfredo Rodriguez ainda como fotógrafo, em exposição de retratos à óleo, dos principais ambientes históricos e pessoas de importância de nosso Estado. Depois é que vimos conhecer o
verdadeiro Walfredo – homem de muitos instrumentos, como cineasta, historiador e memorialista. É o mais autêntico historiador de nossa cidade, com mais de um livro a respeito e fotografias evocativas que deram oportunidade à criação do
Museu Walfredo Rodriguez. Como escritor nos brindou com História do Teatro da Paraíba (1831-1908), João Pessoa, 1960; Roteiro Sentimental de uma Cidade, São Paulo, 1962; Imagens da Velha Paraíba, João Pessoa, 1967 e, Vitrines da Cidade, obra inédita que deverá ser publicada pelos setores culturais.


Sobre cinema, informa Wills Leal: “Antes de fazer sua obra mais importante, que é Sob o Céu Nordestino, Walfredo Rodriguez filma algumas cenas de Amor de Perdição, em “oito arrebatadoras partes”, sobre o qual, infelizmente, não se tem maior notícia, a não ser algumas fotos. Antes, em sua fase de experiência, sob o comando do Barradas, em 1921, fez vários filmes no Rio de Janeiro. Depois da experiência, retornou à Paraíba, para filmar por conta própria, tendo feito Reminiscência de 20 e Carnaval paraibano e pernambucano, em 1923. A verdade é que Walfredo Rodriguez percorreu o universo da cultura paraibana, desde reminiscências, teatro, história e cinema, no interesse de conservar nossa memória e deixar registrado os traços de sua personalidade cultural, como um dos mais fecundos homens de letras e de outros misteres, já nascido na Paraíba.” Daí a necessidade dos setores responsáveis pela nossa cultura, editar Walfredo Rodriguez e a Cultura Paraibana, bem como Vitrines da cidade, obra que deixou inédita."


Na qualidade de neto de Walfredo Rodriguez, tive a oportunidade de destacar naquela auspiciosa Semana Cultural de 20 a 24/agosto/1984:

“...O que mais me impressionava em Walfredo era o amor a tudo que ele fazia. Ele amava o jornalismo, a fotografia, com aquela paciência própria dele, recortando os jornais do dia, em toda a sua existência, os fatos que mais lhe interessava. É como disse certa vez o saudoso Virgínius da Gama e Melo, de que Walfredo viu os outros viverem a vida....” (página 88 do referido livro)


Relembrando do meu avô

Do meu livro de crônicas “Palavras Dançarinas”, lançado em 28.11.2007, destaco os seguintes textos em que falo do meu avô:


Fragmentos de memória

Decidi abandonar a força que faço para não revelar meus sentimentos saudosistas. Hoje estou às escâncaras. Quero chorar todas as minhas saudades. Como se o passado quisesse virar o presente e esquecer que o futuro existe. Dizem que reviver o passado é chorar duas vezes. Hoje prefiro chorar mil e uma vezes.
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Para o meu cenário de lembranças, trouxe o meu avô Walfrêdo, pai do meu pai, no seu caminhar lento, claudicante, pelas ruas e becos desta cidade que tanto amou e fotografou, perenizando suas lembranças... Entro com ele e meus irmãos no velho cinema Rex e encontro Seu Etelvino com a sua elegância e cabeleira branca despontando na portaria... Depois, ando com meu avô no bondinho do Ponto de Cem Reis, o mesmo ponto onde o meu pai costumava sentar numa das suas imensas poltronas de concreto para engraxar os sapatos vulcabrás, enquanto lia o Jornal “A União”, acompanhando os fatos da época, que, romanticamente, demoravam a chegar por estas plagas, diferentemente desses tempos de globalização e sem qualquer novidade... Andar com o
meu avô era circular com uma biblioteca de ensinamentos. E a coisa que eu mais sentia inveja dele, se é que podemos ter inveja dos nossos avós, era a sua encantadora paciência. Talvez por isso, nas horas vagas, também fosse um mágico. Sim, isso mesmo. Para quem não sabe, meu avô gostava de fazer mágicas. Quando ia ao Rio de Janeiro ou São Paulo, lá pelos anos sessenta, sempre de navio, voltava com um arsenal de ilusões. Eu e meus irmãos, na curiosidade de meninos e sonhadores, aproveitávamos, quando ele saía de casa, para fuçarmos as suas mágicas e descobrirmos os seus segredos. Claro que vivíamos cheios de remorsos. E um desses remorsos hoje me despertou, ao ver o meu avô no seu caminhar lento, no cambalear mágico
dos anos, apoiando-se na inseparável bengala.
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Saudades de Tambaú

Atualmente, caminho pelo calçadão de piso tortuoso, esburacado, mas não deixo de evocar na memória esses tempos de saudades da velha Tambaú. Do bom tempo do me avô Walfredo, guardião-mor das relíquias históricas de nossa cidade; do meu pai José de Nazereth, pescador por opção, bancário por necessidade; ambos boêmios, mas de uma boemia diametralmente opostas. O meu avô, pai do meu pai, boêmio das indormidas noites a fio de pesquisas, na quietude do quarto caiado de amarelo da sua casa, recortando artigos de jornais e escrevendo a história de João pessoa. O meu pai, boêmio das noites dos drinks entorpecedores da alma, na inquietude natural dos bares da vida, escrevendo, a seu modo, os poemas de quem tanto ama a vida. De comum? Ambos amavam a cidade.
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Essa manhã, tomado de uma súbita nostalgia, resolvi fazer, dentro de mim, um pouco do passeio retrospectivo de que tão bem fala o meu avô, no seu “Roteiro Sentimental de Uma Cidade”, editora brasiliense, pag. 47, ano 1962: “Venha moço, vamos fazer um passeio. Deixe que ajudado pela memória, lhe mostre algo do passado da nossa cidade. Vamos recuar muitos anos. Não é a João Pessoa da atualidade não; essa você bem a conhece, com o seu progresso, defeitos e irreverências...” E, assim, Tambaú dorme e desperta no meu coração e na minha alma...”