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Crônicas:
Crônica Uma rosa e uma flor "Todo santo dia ele lhe dava uma rosa. Ou uma flor. Rosa e flor. Não são a mesma coisa? Flor e rosa. O que difere uma da outra? O interessante é que ela se chamava Rosalinda. E todos os dias ele dava uma linda rosa a Rosalinda. E, às vezes, também uma flor. Na verdade, o nome dela era Rosalinda Florbela. E todos os dias ele também dava uma bela flor a Florbela. E, às vezes, também uma rosa. Assim, uma linda rosa ou uma bela flor eram dadas, todos os dias, a Rosalinda Florbela. A ela pouco importava se rosa e flor são ou não a mesma coisa. E, aos poucos, com a paciência que ilumina os sábios, e o encanto dos apaixonados, o homem plantou um jardim no seu coração.”
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Apresentação
Tempos houve em que a crônica era havida como um gênero menor, de somenos importância, propícia e adequada a jornais, periódicos e panfletos que iam caindo no rol do esquecimento, não se atribuindo a ela sequer a característica de algo de valor literário: tratava-se de um gênero inferior. Custou-nos tê-la como algo mais consistente, literariamente considerando, até que ela foi se impondo com um valor que lhe era intrínseco. Para isso contribuíram os velhos cronistas que já não eram considerados cronistas velhos. A mim, me lembram as crônicas do maranhense Humberto de Campos, mestre na arte de fazê-las e de perpetuá-las como verdadeiras obras literárias. Em passado mais recente, vem-me à memória o quarteto de cronistas titulares da antiga revista Manchete, onde pontificavam, semanalmente, os mestres Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Henrique Pongetti, sem esquecer Rachel de Queiroz, de O Cruzeiro. Para não citar outros cronistas de renome nacional, esses fizeram da crônica um gênero maior, transmitindo o seu legado aos leitores hodiernos, não mais através daqueles periódicos, mas em livros que já são considerados obras representativas da literatura tupiniquim. Ocorreu, então, a perpetuação de fatos que antes apresentavam uma dimensão quase que tão somente ocasional, para se tornarem obras do mais alto valor literário, seja do ponto de vista memorialista, poético ou É isso o que vemos nas crônicas e nos bons cronistas do nosso tempo: mestres no dizer as coisas mais simples, transformando-as em lições de profundidade existencial e obras de deleite artístico e espiritual. Vai aqui a lembrança de alguns dos nossos cronistas provincianos, que vivem, no seu labor produtivo, de nos transmitir suas emoções, seus sentimentos, a partir de fatos que, muitas vezes, passam despercebidos aos olhares de leitores menos prevenidos. Como disse, no âmbito regional, queremos enaltecer as páginas diárias de um Francisco Pereira da Nóbrega (in memoriam), de um Luis Augusto Crispim, de um Gonzaga Rodrigues, de um Martinho Moreira Franco, de um Carlos Romero, de um Francisco Sales Cartaxo (Frassales),entre tantos outros que merecem e são mais bem olhados e lidos por aqui e, com certeza, por alhures. Minha homenagem, em forma de reconhecimento, àqueles que, como esses, fizeram do seu ofício uma maneira de tornarmos-nos mais conscientes do valor das coisas e dos fatos, por menor que estes nos possam parecem. Cronista ou poeta? Poeta ou cronistas? Poder-se-ia dizer que, lendo as crônicas de Walfrêdo Rodriguez Neto, tem-se um misto das duas coisas, uma vez que já não se sabe se ele faz poesia em forma de crônicas do cotidiano, ou se deixa para o leitor o trabalho de descobrir, nas entrelinhas de suas crônicas, o que elas deixam transparecer de poesia. Conheci Walfrêdo através da tradição familiar do seu avô, autor homônimo da encantadora obra Roteiro Sentimental de uma Cidade. Conheci-o de mais perto quando tive a subida honra de ler, ainda em fase de feitura, o seu romance futurista A Cidadela dos Felizes. Espessa obra de fôlego criativo e, como disse, futurista, que falta ainda ser mais bem descoberta por aqueles que se deliciam com obras de ficção de caráter existencial. Agora me vem Walfrêdo, concedendo-me igual gesto não só de ler as suas crônicas em primeira mão, como de dizer a outros do meu sentimento emocional ao relê-las. Pode-se dizer que são páginas como aquelas às quais me referi: fatos do dia-a-dia que, certamente, poderão ser lidos, mesmo no futuro, de maneira atemporal.Falam de fatos simples vividos pelo autor, porém mostrados de uma forma lírica e telúrica, em linguagem espontânea que nos prende a atenção e faz-nos rememorar dias idos e vividos, quaisquer que sejam as nossas origens e vivências. A simbiose crônica-poesia está exatamente no poder que o autor demonstra de nos fazer sentir a poesia do dia-a-dia, através de suas crônicas; de coisas que, a princípio, poderiam parecer desprovidas de maior beleza, porém que vão, num crescente, tomando-nos de um prazer íntimo, que estão como a nos dizer que eu era feliz e não sabia... Francelino Soares de Souza |