Entrevista com o escritor
Walfrêdo Rodriguez neto

1.O que significa para você ser escritor?
Ser escritor do gênero ficcional é a possibilidade de exercer um elo de comunicação entre a realidade e os nossos desejos mais lúdicos. Dizem que o verdadeiro escritor não precisa de leitor, ele escreve pela simples necessidade de escrever. Esta é uma verdade indiscutível. Já pensei assim, mas hoje acho que existe um momento, ou vários momentos, em que escrever representa mesmo essa necessidade de colocar idéias no papel. Mas, depois disso, não adiantam idéias num papel se não forem divulgadas. Seria uma espécie de saber egoístico, de inócua criatividade.
Assim, o escritor somente se torna escritor, na melhor acepção da palavra, quando é lido.

2. Você não acha tardio um escritor estrear com o lançamento do seu primeiro livro quando está faltando apenas quatro dias para completar 49 anos?
Os advogados diriam, em meu favor:  “contra fatos não há argumentos”: Miguel de Cervantes publicou o seu Dom Quixote aos cinqüenta anos de idade; Jonatham Swift tinha 59 quando surgiu a “As viagens de Gulliver”; Walter Scott, 49, com “Ivanhoé”; Dostoiéviscki, 46, com “Crime e castigo”; Daniel Defoe, 54, com “Robison Crusoé”; Stendhal, 55, com “A Cartuxa de Parma”; Machado de Assis, 42, com “Memórias póstumas de Brás Cubas”; Tolstoi, 47, com “Ana Karenina”; Euclides da Cunha, 55, com “Os sertões”; Bram Stoker, 50, com “Drácula”; Camões, 48, com “Os lusíadas”; Oscar Wilde, 46, com “O retrato de Dorian Gray”; Joseph Conrad, 43, com “Lord Jim”; Cecília Meireles, 52, com “O romanceiro da inconfidência”; Simone de Beauvoir, que pouco antes de completar 60 anos lançou a sua melhor obra: “A mulher desiludida”. Isso, apenas, para citar alguns e não falar de outros tantos. E, pasmem, meu avô Walfrêdo Rodriguez somente após os setenta anos conseguiu publicar o seu “Roteiro Sentimental de uma Cidade”, hoje um dos livros de ouro da editora Brasiliense.

3. Para quem o escritor escreve?
Clarice Lispector disse que “escrever é libertar-se de si mesmo”. Outro autor afirmou que escrever é se libertar da emoção. Segundo Saramago, o escritor escreve para si mesmo. Acho que ele tem razão. Na verdade, o escritor procura escrever o livro que gostaria de ter lido.

4. Quando você entendeu que era um escritor ou pretendeu sê-lo?
Na verdade, penso que o escritor já nasce com esse potencial. O escritor vem ao mundo com uma missão óbvia: escrever. Porém, muito mais do que isto, ele precisa sensibilizar almas. Porque o escrever literário não é apenas um jogo de palavras. Se fosse, bastaria, segundo Umberto Eco, armazenar no computador uma bíblia, vários dicionários, vários romances, listas telefônicas, e fazer um programa de cruzamento de textos, com algumas adaptações para se obter uma obra acabada. Isso, na verdade, não ocorre.
Objetivamente, a minha resolução em ser escritor foi tomada por volta dos meus 13 anos de idade, quando eu ouvi a minha alma dizer que era para isso que eu vim ao mundo, muito embora somente materializada essa minha resolução, em termos de publicação, pouco antes de completar 49 anos. Assim, o meu sonho perdurou por longos 35 anos, aproximadamente. É claro que durante todo esse tempo eu ouvia a minha alma dizer: “não se afaste da sua finalidade de vida”. No discurso do lançamento da “Cidadela dos Felizes” eu contei a saga para me tornar escritor. O mais curioso é que ao apresentar o meu primeiro manuscrito aos 13 anos a um escritor famoso da cidade ele escreveu uma carta me alertando que no futuro eu iria rir do que havia escrito. Pasmem, que esse escritor, depois de três décadas, foi quem apresentou o meu livro e rememoramos esse episódio. Na verdade, ele tinha razão: o que eu havia escrito era algo muito banal mesmo.
A título de curiosidade, é bom dizer que a materialização do sonho não foi nada fácil. Principalmente, por ter uma formação jurídica, não fazendo, assim, parte do meio literário específico. Envolvi-me com a neurolinguística aos 40 anos de idade e elaborei um livro de auto-ajuda (que permanece inédito). Na verdade, acho que escrevi esse livro de auto-ajuda para mim mesmo. Para criar o cenário perfeito visando vôos maiores. Cheguei a distribuir em vários cantos da minha casa, a frase impressa em letras garrafais: “EU SOU ESCRITOR”. É que, não é fácil mudarmos de caminho ou de profissão, principalmente quando o tempo passa e nos acostumamos com o que vem sendo feito. Claro que você não pode ou não deve forjar uma personalidade que não tenha a ver com a sua alma. Ouvi a minha, por isso quis ser escritor. Posteriormente, reescrevi o romance que não havia terminado na infância e que também permanece inédito, uma vez que, ao meu sentir, ainda não detém as qualidades necessárias para publicização. Escrever um livro é sempre um passo ousado, porque depois de divulgado não há como apagá-lo. No entanto, quando você escreve com a sua verdade, não há como se arrepender.

5. Quais os autores que o influenciaram?
Sempre gostei de dizer que a inspiração não é algo fácil de detectar. Ela nasce sob diversos matizes, até se metamorfosear em um determinado signo, ou signos. O escrever literário é, pois, a capacidade de transformar essa inspiração multifacetada em um signo concreto. Assim, como todas as pessoas, sofri influências múltiplas. De toda sorte, num esforço para enumerá-las diria que elas decorreram, em primeiro lugar, das estórias que minha mãe contava; da leitura dos 18 volumes do Thesouro da Juventude, que nos deleitava com os contos de Grimm e Andersen, as fábulas de Esopo, as aventuras de Pedro Malazarte e tantas outras que povoaram o meu mundo infantil; também daquela época, Os serões de D. Benta e Reinações de Narizinho, produtos da pena mágica de Lobato, que antecederam a leitura de muitos outros livros; não posso esquecer de mencionar as inesquecíveis revistas em quadrinhos, conhecidas como gibis, que trocávamos nas portas dos cinemas. Na adolescência, entre Jorge Amado, José de Alencar, Eça de Queiroz, se imiscuíram os incontáveis livros de bolso e as fantásticas fotonovelas em preto e branco que minha tia Luíza Marilac gentilmente me cedia. Lembro-me bem, cheguei a ler doze fotonovelas em um só dia, tanta era a inspiração para o amor, e, possivelmente, o que me faz ser ainda hoje um incorrigível romântico. No andar dos anos, pude conhecer os livros que me impuseram, meio sem saber, os amigos Cleanto Gomes Pereira e Francisco das Chagas Gil Messias, leitores vorazes dos clássicos e principais livros da literatura mundial, quando então pude descobrir Dostoievski, Steinbeck, Hesse, Kafka, Hemingway, etc;... Hoje sou um arrependido por não ter lido mais. Tanto que busco incessantemente corrigir esta distorção na minha formação.

6. Qual a sua maior qualidade?
Com certeza não é o conhecimento literário. Não me considero, porque não sou mesmo, um intelectual. Intelectuais são Evandro Nóbrega, José Neumânne Pinto, Hidelberto Barbosa, Luís Crispim e W. J. Solha. A propósito, penso que as gerações que antecederam a minha foram beneficiadas com essa capacidade natural de ler James Joyce, Marcel Proust, Ezra Pound, Jean Paul Sartre, Nietzche, etc. Quando veio a revolução dos anos sessenta, as pessoas, ao meu sentir, passaram a ler menos, preocupadas, talvez, com os novos rumos da vida humana. Hoje em dia, paradoxalmente, com a fonte de informação inesgotável e a homogeneização do conhecimento, parece que o problema se agrava.
Doutra parte, é preciso desmistificar essa estória de que o escritor é, necessariamente, um leitor voraz dos grandes autores. Claro que isso pode trazer grandes influências, mas nem sempre as mais benéficas. A propósito, o professor Pasquale Cipro Neto, em uma de suas entrevistas na Tv, pontificou que os melhores escritores não são formados em Letras. Evidente que, com isso, não quero dizer que os versados nessa profissão não podem ser escritores maravilhosos. Compenso a minha reconhecida deficiência, com o lado que eu entendo como mais valoroso do escritor: a sensibilidade. Mesmo porque - não é o caso dos citados e eles detêm também muita sensibilidade -, um escritor não precisa ser, ainda que normalmente seja, um intelectual, um conhecedor profundo da literatura, nem um gramático incorrigível. Para isso existem aqueles que fazem parte da academia. O que o escritor precisa mesmo é ser inventivo, inspirado, sensível.

7. Você tem algum método, um ritual, para escrever?
Já ouvi alguém dizer que o melhor método é não ter método algum. Não sei se isso cabe bem em relação a quem é profissional da escrita. Ou mesmo, na vida cotidiana das pessoas. Por exemplo, uma dona de casa. Deve haver uma disciplina mínima para que se possa atingir qualquer objetivo. A essência do método é deixar a inspiração fluir. Primeiro, fixar metas. Depois, cumpri-las. Quando determino as metas, passo a escrever a todo o momento, em qualquer lugar, as idéias martelam o cérebro e eu preciso sempre andar com papéis no bolso para anotá-las, não esquecê-las e, depois, desenvolvê-las. A inspiração não tem hora marcada para chegar. Às vezes, faz-se necessária forçar a inspiração, escrevendo ao léu pelo simples fato de gostar de escrever. Buscando ganchos....

8. Como você escreve?
99% com o computador. O raciocínio é muito rápido para ser acompanhado pela mão. Também existe aquela sensação de perda de tempo. Gasta-se muito tempo escrevendo com a mão. Muito embora, Ariano diga que gosta de escrever com a mão para sentir o prazer de escrever. Mas, Ariano é Ariano... Quando estou vivenciando uma meta, tenho o hábito de fazer anotações, em qualquer lugar. A inspiração não avisa quando chega. Depois, no recôndito do lar, passo as anotações para o computador, depurando-as, ou mesmo ampliando-as. Não confio em guardar frases, argumentos literários, na memória. Não sou bom nisso. E já perdi grandes idéias quando assim fazia.

9. Qual a maior dificuldade para escrever?
Ausentar-se do cotidiano. Acho até que é pior mesmo do que buscar a inspiração. A propósito, Ariano Suassuna fala sobre essa tragédia de fugir do dia a dia para poder escrever. As solicitações de praxe, que perturbam a vida do escritor. Todavia, no desenvolvimento do processo de escrita, acho que a principal dificuldade é o ineditismo. Ora, todo escritor procura o ineditismo. A rigor, aquilo que se escreve e não é considerado inédito pode ser considerado plágio. De toda sorte, as estórias são sempre as mesmas, o que muda é o enfoque. Falar de amor não é plágio, desde que não haja coincidências flagrantes no desenvolver do tema. Quando falo em ineditismo, falo na recriação dos temas que são sempre abordados, ou mesmo na invenção de um novo tema, o que considero a consagração de qualquer escritor, que revela o seu lado de cientista. Sem querer diminuir o mérito dos que o possuem, penso que escrever atualmente é imensamente mais difícil do que no tempo de Flaubert, Tolstoi, Dostoievski, Joyce, Sheakespeare. Naqueles tempos poucas pessoas escreviam. E toda estória era uma descoberta. Qualquer tema era acolhido como uma coisa do outro mundo. Hoje em dia existem milhões de escritores e as estórias já estão mais do que rebuscadas. Assim, para mim, o ineditismo é a principal dificuldade do escritor no mundo moderno. E a tendência, é claro, é piorar.

10. O que é mesmo um livro?
Um livro é uma conversa entre o autor e o leitor. Como tudo na vida, essa constatação tem duas faces: uma, a grande vantagem do autor conversar o que quer, sem ser importunado. Daí, melhor dizer, tratar-se de um monólogo. Um fala e o outro escuta; o outro lado da moeda é que o leitor, por sua vez, ouve se quiser, tem o poder em suas mãos de não dar a mínima ao que escreveu o autor. Na verdade, o autor fica nas mãos do leitor. Ocorre que, se o leitor ousar enfrentar o livro e gostar do que o autor escreve, coitado dele, vai se tornar um prisioneiro das palavras do autor, ainda que não concorde com tudo ou quase nada.
Importa ressaltar que o livro atualmente não é a grande mídia. Ainda assim tem os seus encantos que nunca foram superados. Imaginem, então, quando o livro era uma grande mídia, isto é, não existia televisão, cinema, nem internet. De toda sorte, o livro tem o seu lugar eterno no coração dos leitores e jamais será superado, nem mesmo pela leitura feita através da tela de computadores.

11. Antes da “A cidadela dos felizes” você já havia escrito alguma coisa?
Já escrevi muitos poemas, algumas crônicas, até pequenos contos. Todos perdidos na poeira do tempo. Coisas de escritor bissexto. Tive duas poesias publicadas no Correio das Artes na década de 80. Três crônicas em jornais da cidade, nos anos 90. Tive uma grande experiência como um dos responsáveis, juntamente como os meus colegas da época Giovanni Luiz Bezerra e Ricardo Paulo de Oliveira, pelo jornal interno do PARAIBAN-Banco do Estado da Paraíba, onde eu trabalhava. Este informativo também contou a colaboração magistral do jornalista e escritor Evandro Nóbrega, na época editor do Jornal “O Norte”, com quem também muito aprendi. Depois dos quarenta anos de idade, quando tive o insight para assumir de vez a carreira de escritor, fiz um livro de auto-ajuda, que não cheguei a publicar. Posteriormente, escrevi um romance, também inédito e que não julgo ainda devidamente amadurecido para publicização. E muita literatura especializada, isto é, por força da profissão de advogado que exerci, que, evidentemente, me roubou sagradas horas que poderiam ser exercidas com a literatura propriamente dita. Mas, nada que se possa arrepender. Tudo a seu tempo e modo...

12. Qual a proposta de “A Cidadela dos Felizes”?
Mais uma tentativa de plantar a semente do amor. Passar do amor caótico para o amor glorioso. Diz a contra-capa do livro: A Cidadela é um texto cosmopolita, que pode ser definido, em uma única frase, como “uma clara provocação às pessoa para que não desistam de amar”. Pode-se indagar, e como acontece isso na prática? A contra-capa dá uma pista esclarecedora: e se todas as pessoas fossem verdadeiras? Ora, a verdade é revolucionária. Mas, a resposta com todas as letras está no livro. Um romance moderno que se passa no período de setembro /2002 a janeiro/2003. E que conta a estória de um notável conselheiro matrimonial, o sexagenário Dr. Grall Fontella, que, ao utilizar a rede mundial de informática, promove uma pujante e arrebatadora experiência, impulsionando pessoas a abandonarem o estado letárgico em que se encontram. No desenrolar da instigante trama principal, afloram sub-temas que ajudam a compor uma tessitura densa, onde se evidenciam os conflitos internos e externos vivenciados por personagens que buscam de forma obstinada o caminho da suprema felicidade.

13. Qual o diferencial de “A cidadela dos felizes”?
Na verdade, eu não gostaria de responder esta pergunta. Porque acho que ela deve ser respondida pelos leitores. Não escrevo com a preocupação de fazer essa diferença. Escrevo com a sensibilidade no coração, na mente e nos dedos. E quando escrevo procuro unir a utopia à realidade. Se isso é uma diferença – não acho, porque muito dos escritores fazem isso – essa seria a tônica da “Cidadela”.

14. O que é mais difícil para o escritor?
Às vezes, a incompreensão das pessoas. A falta de reconhecimento. Não sou hipócrita para dizer que o escritor não busca pelo reconhecimento de sua obra. Falo da obra e não da pessoa. Afinal, quem não busca? Se não pelo livro - pelo conteúdo, em si -, mas do trabalho que o escritor desenvolve para atingir o seu objetivo. Não é incomum as pessoas não comprarem certos livros por considerá-los caros.  Esse, na realidade, não é um problema do escritor. Explico, falando sobre a minha experiência: para escrever “A Cidadela dos Felizes” eu levei um total de 4 anos. Doei sangue, suor, inspiração, alma, tudo. O propósito de todo escritor é dar o melhor de si. Pelo menos em tese. Os leitores não sabem – alguns até sabem - o quanto dá trabalho escrever um livro. Raquel de Queiroz achava um verdadeiro sacrifício escrever um romance. Não estou falando sequer do trabalho relativo a inspiração. Estou falando do trabalho material mesmo. Ou seja, digitar o livro, tirar “n” cópias dos manuscritos na busca pela sedimentação e concatenação das idéias; do tempo e do dinheiro que se gasta adquirindo os bens para produzir o livro, tais como papéis, fitas de impressão, etc. No meu caso, faltando uns três meses para encerrar o livro, tive de alugar um lap-top para trabalhar no hotel em que eu morava. Depois tive de contratar um especialista em gramática para fazer uma revisão do manuscrito. Isso tudo com recursos próprios. É difícil ser um escritor de uma editora. Imagine o quanto é difícil ser um escritor independente e sem recursos. E, depois de tudo pronto, parte-se em busca da publicação, que não é nada fácil. No caso, optei pela produção independente, depois de “n” editoras de peso e sem peso terem fechado às suas portas. Mas, isso faz parte do processo. E quando tudo parece que são flores, depois vem o lançamento da obra. E, parece que tudo começa novamente. Penso que a divulgação é tão difícil ou mais ainda que a feitura da obra. Estou a caça da minha cara-metade, a agente literária ou a editora que possa fazer a diferença, que suavize o meu caminho em busca da expansão da minha mensagem literária. Uma coisa eu posso afirmar: aprendi que não devemos ficar no discurso secular de que não se vive como escritor, que tudo é impossível, que no Brasil não existe uma cultura de livros, etc. Ou acreditamos no que fazemos, ou acreditamos na nossa alma, ou simplesmente vamos viver frustrados pela eternidade. Devemos, isso sim, mudar os paradigmas, ainda que seculares ou milenares. E, claro, que essa lição não serve apenas aos escritores...

15. Como é o seu hábito de leitura?
Não sigo nenhum método. Leio sempre que posso.  E não podia ser diferente. Normalmente, tenho surtos literários.  Isso acontece tanto no processo de leitura de outros autores como de criação da minha própria obra. Uma fase de maior profusão e outros de quase total ausência dos livros; principalmente, quando estou escrevendo. Já ouvi de algum escritor que não é bom ler outros autores enquanto se está escrevendo. Acho que isso é correto, pois se perde a concentração, problematizando a criação das estórias, dos personagens. Tenho me programado para ler os grandes escritores, aqueles que as gerações anteriores a minha normalmente costumava faze-lo. Em maio de 2006 fiz meio século de vida. Tenho me dedicado a um hobby cultural, como a me penitenciar do que não fiz e devia fazer no passado: adoro coletar o nome dos escritores, fazendo uma grande lista de escritores internacionais e nacionais, inclusive os que não são tão conhecidos na mídia ou projetados no âmbito nacional. Já cheguei a quase quatrocentos nomes; leio suas biografias, examinando onde e quando nasceram, as datas em que morreram, suas obras, ou seja, suas contribuições literárias para a humanidade. Isso, porém, é um trabalho que demanda tempo...

16. Qual é o livro que está lendo e quais foram os últimos livros que leu?
Atualmente, estou tentando me debruçar em “Dublinenses”, de James Joyce e disposto a ler “No caminho de Swann”, de Marcel Proust. Ambos representam para mim essa saga em busca do tempo perdido. Não é uma leitura fácil, mesmo porque foram escritas no início do século XX. Também estou relendo “A história da raça humana”, de Henry Thomas, numa edição de 1967. Os últimos livros que li foram: “Maria, a maior educadora”, de Augusto Cury, “O Silêncio do delator”, de José Neumânne Pinto; Quando riem as maçãs – Cristina Guedes; Esaú e Jacó – Machado de Assis; Pantaleón e as visitadoras – Vargas Losa; Trigal com corvos – W.J. Solha; O fio da navalha – William Somerset Maugham; O Senhor embaixador – Érico Veríssimo; Todos os nomes – José Saramago; A mulher que escreveu a Bíblia – Moacyr Scliar; A carta esférica – Arturo Pérez-Reverte; Inferno – Patrícia Melo;. Se um viajante numa noite de inverno – Ítalo Calvino;. Morte em Veneza – Thomas Mann;. Quase memória - Carlos Heitor Cony;. A mulher desiludida – Simone de Beauvoir;. O jovem Torless – Robert Musil;. O caso Morel – Rubem Fonseca; A revolução dos bichos – George Orwell; Nosso homem em Havana – Graham Greene; Lolita – Vladimir Nabokov; Em nome de Deus – Karen Amstrong; O último judeu – Noah Gordon; O romanceiro da inconfidência – Cecília Meireles.

17. Quais são os livros que você recomendaria?
Em primeiro lugar, um livro que não é um simples livro: A Bíblia. Somente após a minha conversão e no prazo de dez meses, com a minha esposa, entre agosto/2009 e junho/2010, muito embora seja um livro para se ler pela eternidade, todos os dias. Mas, a Palavra do Senhor é um caso a parte. No mundo secular, não tenho assim uma predileção radical ou específica sobre autores. Nem tampouco sou crítico literário. Falo, realmente, como leitor. Mas, gosto dos livros de Hemingway, O sol também se levanta e Por quem os sinos dobram. Embora faça bastante tempo que os li. Tem aquela coisa de uma Espanha nostálgica, revolucionária. Os cenários são lúdicos. Gosto da capacidade de escrever de Saramago em Todos os seus nomes. Érico Veríssimo em O senhor embaixador. Vargas Llosa em Pataléon e as visitadoras. Carlos Heitor Cony em Quase memória. Gostaria muito de ter escrito “Se um viajante numa noite de inverno” de Ítalo Calvino, especificamente a primeira parte do livro. Gosto do “Alquimista” de Paulo Coelho, com quem me identifico nessa questão de buscar a lenda pessoal. Os clássicos, evidentemente, devem ser lidos. Mas, não é fácil ler os clássicos. É preciso, de certa forma, uma bagagem cultural prévia. Embora não devemos radicalizar no sentido de não lermos os clássicos por não termos essa bagagem. Se não vira um ciclo vicioso, que não leva a nada. Devemos, portanto, nos esforçar para lê-los e compreendê-los.

18. Na Paraíba, o que você poderia destacar no campo da literatura?
Além dos eternos clássicos, como José Lins do Rego, Augusto dos Anjos, José Américo de Almeida, Ariano Suassuna, vejo grandes nomes como o poeta, romancista e jornalista José Neumânne Pinto, que lançou recentemente “O Silêncio do Delator”; Carlos Romero, que também lançou há poucos dias “Lições de vida”, W. J. Solha, que, no final do ano passado brindou-nos com o seu “Trigais com corvos” e agora o seu novo livro na praça. “A História Universal da Angústia”. Há, uma vasta produção literária, como, p. ex., a inspirada jornalista Cristina Guedes, com o livro de crônicas “Como riem as maçãs”, além de muitos outros. Há, graças a Deus, uma grande produção de obras literárias em nosso estado.

19. Quais são os seus planos para o futuro?
Todos nos temos uma missão. Lair Ribeiro fala de finalidade de vida. Anthony Robbins de propósito de vida. Deepak Chopra fala de dharma. Augusto Cury denomina projeto de vida. Penso que tudo é a mesma coisa. Eu falei que a missão óbvia do escritor é escrever. Mas, isso, infelizmente, não basta. É preciso, é imperioso, que também divulgue a sua obra. Nessa parte, precisa da ajuda dos amigos, dos leitores, da propaganda boca a boca, da mídia, enfim, da ampla divulgação pelos veículos possíveis. Aqui também entra o decantado “máster mind”, ou seja, a “mente superior” de que tanto fala Napoleon Hill, que significa pessoas que se juntam de forma harmônica, voltadas para um só objetivo. O escritor tem de ter ambição, a boa ambição. Aliás, não é só o escritor. A ambição é um direito, que não pode ser confundido com ganância. No momento, procuro fazer esse trabalho de divulgação. Porque sonho – e esse é um sonho natural – expandir a minha mensagem literária. Afinal, esse é o sonho de todo escritor. Atingir o maior número de leitores. Nos meus planos, pois, penso em ser contemplado por uma grande editora do país, para melhor divulgar a minha obra, disseminando as minhas idéias. Para um futuro breve, penso em continuar escrevendo novos livros... E, assim, continuar respirando o sopro divino da vida.

20.  O que você acha da critica literária?
Independentemente do que eu venha a achar, ela simplesmente existe. E, quanto aos críticos, uso o conselho de Espinosa ao analisar os vultos históricos: “não os criticar, odiar, ou condenar, mas procurar sempre compreendê-los.” Por fim, devemos aceitar as críticas, sejam boas ou ruins, e fazer delas o que bem entendermos. Um livro é uma idéia, e Schopenhauer já disse que as idéias de inicio são ridicularizadas, depois passam a ser aceitas.

21. Na sua opinião, o que é um livro bom?
Tudo que decorre da arte não obtém uma resposta conclusiva. O que pode ser bom para mim, pode ser péssimo para outra pessoa, ou o contrário. De toda sorte, dentro de uma visão própria, para mim um livro é bom quando atinge o seu objetivo: isto é, o de comunicar a idéia pretendida pelo autor. Numa visão de mercado, porém, o livro somente pode ser considerado bom – aí podemos substituir o bom pela palavra sucesso – quando é provado pelo maior número de leitores. No caso do Brasil, para saber se um livro faz ou faria sucesso, faz-se preciso que seja lançado por uma editora de nome, saia uma reportagem sobre ele na revista Veja, seja objeto de uma entrevista no Jô, ou seja divulgado em uma novela ou programa de larga repercussão. Afora isto, é muito difícil um livro fazer sucesso no sentido amplo. No máximo, um sucesso relativo, localizado. Gosto de dizer que um autor é sucesso pelos leitores anônimos e não pelos amigos, que nunca chegam a pouco mais de meia dúzia, ou de conhecidos que não superam a casa dos mil. Porém, para chegar a esses desconhecidos é preciso a ajuda de alguém, da mídia, etc.

22. Você se considera uma pessoa realizada?
Essa é uma pergunta difícil, e pode obter uma resposta indefinida. Na verdade, sob um prisma rigoroso, nenhuma pessoa pode se considerar realizada. Talvez, sob algum aspecto específico sim. De todo modo, para responder esta pergunta sem filosofar muito, caímos no lugar comum: dizem que uma pessoa realizada é aquela que teve um filho, plantou uma árvore e escreveu um livro. Eu acrescento mais um dado para a plenitude de uma pessoa: encontrar o amor da sua vida. Por esse caminho eu sou uma pessoa realizada, uma vez que plantei uma árvore – olhe que isso aconteceu em uma solenidade no colégio de freiras que eu estudei por volta do ano de 1965 na cidade de Areia-PB -. Eu fui o garoto do colégio escolhido para plantar a árvore, enquanto outros cavavam o buraco, etc. Minha esposa teve um filho em 1o de outubro de 1981. E, em 20 de outubro de 2003 eu terminei de escrever o livro, que foi lançado no dia 25 de maio de 2005. Na verdade, como já disse, eu escrevi outros dois, mas que não foram publicados. Porém, voltando a filosofar, a realização de ter simplesmente plantado uma árvore, ter tido um filho ou escrito um livro não esgota o quadro da realização. Ora, a árvore precisa germinar, precisa de cuidados. O filho igualmente, precisa de eterno acompanhamento. Um livro não se basta quando concluído. Precisa ser publicado. Precisa ser lançado. Precisa ser divulgado. Precisa ser vendido. Finalmente, eu encontrei o amor da minha vida há mais de trinta e um anos, pois estamos juntos desde 11.11.1978. Daí, a realização não se exaure simplesmente com os acontecimentos. Ademais, o homem tem por natureza o inconformismo, o que se por um lado é muito bom, por outro é péssimo. Mas, é preciso saber encontrar o equilíbrio. Então, para responder a pergunta, eu me considero realizado, em parte. Sob outro prisma, tendo me arrependido dos meus pecados e os confessado a Deus, posso dizer que me sinto integralmente feliz, pela fé e graça que são dons Dele e que nos salvou para a vida eterna.

23. Você está escrevendo um novo livro?
Aprendi que devemos focar a nossa energia para o que estamos fazendo, sob pena de fazermos mal. Não tenho essa capacidade de realizar vários projetos ao mesmo tempo. Se tivesse respaldo material, financeiro, etc, poderia até agir diferente. Não é o caso, no momento. Mesmo porque devemos usufruir o caminhar sem a ânsia de chegar a algum lugar, embora sabendo que chegaremos a ele, desde que queiramos. O que importa, enfim, é o caminhar e não a chegada, mesmo porque o homem nunca chega a um objetivo final, que poderia ser traduzido na paralisação dos seus sonhos. É por isso que sempre estamos recomeçando. Na verdade, não exauri a divulgação do meu livro atual e do primeiro. De toda maneira, escrevo quando me dá vontade, para não perder o hábito, para desabafar, para continuar aprendendo e porque é, sem dúvida, uma forma de respirar. Tenho, assim, ainda que despretensiosamente (será mesmo?), algumas anotações de começo de livros,  idéias que vou trabalhando lentamente...

24. Como conviver com a fama?
Concretamente não teria como responder, porque não a vivenciei, e, sinceramente, não a busco. E, mais ainda, não a quero.  Penso, contudo, que sendo a fama decorrente de um trabalho honesto há de ser absorvida com humildade e com a consciência de que é resultante desse trabalho hercúleo. Além do mais, a fama nunca resulta de um trabalho isolado, mas sempre fruto de uma equipe dedicada de pessoas. Sendo a fama a representação do sucesso, é bom termos em mente que o sucesso não dura para sempre. Um dia acaba. E vaidades são apenas vaidades...

25. Quem é a pessoa Walfrêdo Rodriguez Neto?
Um ser humano simples, dotado de extrema sensibilidade. Consciente de que deva ter vários defeitos, mas que tem a  convicção de estar evoluindo sempre para melhorar a sua missão na terra. Um homem que procura cuidar da mente, do corpo e do espírito, para viver melhor consigo mesmo e, conseqüentemente, emanar energias satisfatórias aos semelhantes. Um homem que sonha com um mundo justo para todos, onde fique desmistificada a tese de que a felicidade está no binômio: poder/dinheiro. Ainda assim, que as pessoas possam viver com o mínimo de dignidade. Paradoxalmente, e por conhecer relativamente à história, seja cético quanto à capacidade do homem se tornar essencialmente solidário e mais humano, ao mesmo tempo em que acredita intimamente nessa possibilidade, mesmo porque sem esperanças não vamos a lugar algum. Ainda assim, nada que o homem possa com suas forças simplesmente não vai levá-lo a este estado de felicidade, pois a felicidade somente existe em Deus."


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